As fotos têm uma importância tão grande no mundo atual, em que a informação é abundante e instantânea, por um motivo simples: elas não mentem. Apesar do movimento de desconstrução da fotografia no século passado, ainda nos baseamos nas fotos para conhecer, discutir e entender a realidade. Se vemos uma foto num jornal, tomamos como base que ela é autêntica e a usamos para formar nossa opinião sobre o mundo. Raramente a contestamos.
Quando alguém é fotografado em uma situação embaraçosa (como um político corrupto recebendo dinheiro, por exemplo), uma das formas de defesa é contestar a autenticidade da foto. Embora saibamos que fotos podem ser manipuladas, montadas e cortadas, raramente essa estratégia dá certo. É difícil minar a reputação de algo que nos apresenta o mundo tal como ele é há quase dois séculos.
No seu livro “1984”, George Orwell retrata uma potência totalitarista cujo controle da população passa pela manipulação das informações. O protagonista, Winston, trabalha reformulando notícias antigas de jornal a fim de coincidirem com o que era desejado pelo governo no momento. E, através do “duplipensar”, nem mesmo quem executava essas ações tinha plena consciência do que fazia.
Uma das formas de alterar a realidade é alterar sua (discutível) fiel representação, a foto. Isso não se resumiu à ficção. Stalin, o real Grande Irmão, utilizou desse expediente diversas vezes a fim de remover da história os membros da revolução soviética que caíram em desgraça com o partido, ou foram assassinados por razões políticas.
O livro, com algumas fotos em seu site, “The Comissar Vanishes” mostra como diversos personagens da revolução foram apagados, notadamente Trotsky, de fotos durante o regime stalinista. Outras alterações, como a inserção de slogans em bandeiras, também foram feitas. Aqui, essas manipulações ocorreram em prol da propaganda comunista, mas poderiam servir a qualquer governo ou ideologia que pregue o controle das informações pelo estado.
Com a fotografia digital, tornou-se muito mais fácil e rápido alterar qualquer imagem. Está ao alcance de qualquer um a remoção ou inclusão de uma pessoa de um contexto. O problema é que o debate sobre a ética relacionada a isso não acompanha a velocidade em que as facilidades ocorrem.
Apesar de dessensibilizados pela sua quantidade e pela sua crueza, ainda acreditamos na fotografia jornalística. É preciso, no entanto, que a utilização da imagem nos meios informativos obedeça alguns critérios, como, por exemplo, a não manipulação de uma imagem a fim de a tornar mais apelativa ou cativante, o que pode ir contra as regras de mercado que hoje já se forçam no mercado editorial. E, como sempre, a educação e o exercício do questionamento precisam estar presentes sempre que se deseja fortalecer uma sociedade livre.
Referências
King, D. (1997). The comissar vanishes: The falsifications of photographs and art in Stalin’s Russia. New York: Metropolitan Books.
Orwell, G. (1970). 1984. São Paulo: Companhia Editora Nacional.
Gostei muito do artigo, pra mim ? um alerta. ? de se pensar que quem est? fotografando n?o se corrompa pela imposi??o do mercado e este, na verdade, manipula como os ditadores acima citados.
Parab?ns pelo site Rodrigo;
http://forum.brfoto.com.br/index.php?showtopic=34101&hl=#
Confundir e explicar
Rodrigo,
H? um artigo bastante interessante no n? 18 da revista eletr?nica Studium, onde Marcelo Henrique Leite aborda o tema que voc? desenvolveu aqui. Caso n?o conhe?a, d? uma passada por l?:
http://www.studium.iar.unicamp.br/18/04.html
Um abra?o.
Eric,
J? conhecia, mas vale a dica para quem ainda n?o tinha lido.